“Ele se aproximava de mim com aquelas mãos, ele estendia as mãos. Eu tinha pavor daquelas mãos… Eram enormes, eu queria fugir dali. Porque aquilo me causava dor, porque eu tinha muito medo, mas as mãos me prendiam. Elas me prendiam… E depois, dizia que me matava se eu contasse, que eu nunca, nunca, nunca podia contar para ninguém. Esse medo ainda está dentro de mim”.

O depoimento é de Laura, personagem da atriz Bella Piero na novela “O outro lado do Paraíso”, em cena que veio ao ar nesta última 2ª feira. A personagem vive uma situação que, infelizmente, está longe de se restringir à ficção: a violência sexual contra crianças e adolescentes.

O abuso sexual sofrido por Laura, cometido muitas vezes por seu padrasto quando ela era uma menina de cerca de 8 anos, retrata uma triste realidade, que rouba o destino e gera consequências muito profundas na vida de milhões de crianças e adolescentes ao redor do mundo.

No entanto, essa realidade está ainda mais próxima de nosso cotidiano do que podemos imaginar. E isso se deve à pornografia.

A pornografia está em todo lugar. Cada dispositivo conectado à Internet traz a possibilidade de acesso a uma quantidade infindável de imagens e vídeos pornográficos, gratuitamente, a apenas um clique de distância.

Mas o que a pornografia tem a ver com o abuso sexual de crianças e adolescentes?

A indústria pornográfica é extremamente violenta, e emula o abuso de crianças e adolescentes

Para a maioria absoluta das atrizes e atores que fazem parte da indústria pornográfica, seu cotidiano consiste em uma combinação de violência física e psicológica, e o consequente uso de drogas para suportar o sofrimento. Em mais de 88% das cenas pornográficas há violência física e em mais de 94% das ocasiões as vítimas são mulheres [1].

Agora, combine essa situação a milhões de pesquisas em sites pornográficos, que colocam o termo “adolescente” na 7ª posição entre os termos mais procurados do ano de 2017 [2].

Bem… Alguém pode até argumentar que, na verdade, são atrizes maiores de idade, que somente se parecem mais jovens, ou são caracterizadas para parecerem adolescentes.

Mas essa argumentação não faz o menor sentido. Ao caracterizar atrizes para parecerem infantis, e apresentar violência como algo comum na relação sexual, a pornografia literalmente emula o abuso sexual de crianças e adolescentes. E, ao normalizar esse tipo de comportamento, propaga uma mensagem distorcida, de que isso não é tão ruim assim.

Isso não é nada legal. E, infelizmente, essa mensagem deturpada tem influências na realidade de alguém que consome pornografia, de maneiras muito significativas:

1. Ver pornografia transforma nossas opiniões

Pesquisadores das universidades do Alabama e Indiana, nos Estados Unidos, constataram que, quanto mais tempo uma pessoa for exposta à pornografia, mais tolerante ela se torna com relação à violência sexual [3].

O estudo dividiu voluntários em grupos, que assistiram 4h48min de vídeos. Um dos grupos viu somente vídeos pornográficos, e outro grupo viu somente vídeos sem pornografia. Posteriormente, os participantes responderam questionários com o objetivo de revelar sua opinião sobre diversas questões.

Um dos tópicos que mais chamou a atenção dos pesquisadores foi sobre a pena para o crime se estupro. Para as pessoas que não foram expostas a pornografia, ela deveria ser de pelo menos 12 anos de prisão. Já para aquelas pessoas que viram os vídeos pornográficos, a pena poderia ser muito menor: apenas 6 anos.

2. Ver pornografia transforma nossos comportamentos

De acordo com a pesquisadora Jill Manning, o consumo de pornografia também gera aumento de interesse por práticas sexuais violentas ou abusivas [4].

Isso lhe parece distante? Não se engane: a influência que a pornografia exerce sobre seu consumidor é direta, causando aumento na incidência de comportamentos agressivos que, em alguns casos, podem até mesmo se tornar incontroláveis.

Não é infrequente a menção do consumo de pornografia em casos extremos de violência, como em assassinatos em série. Os vários casos registrados pelo perito analista do FBI, John E. Douglas, autor do famoso livro “Mindhunter” (“Caçador de Mentes”), demonstram que em praticamente todas as ocasiões, pessoas capazes de violência extrema têm como um de seus “hobbies” assistirem pornografia.

O que você pode fazer?

A ficção pode expor a realidade, mas também pode influenciá-la. Casos de abuso sexual em novelas expõem uma situação devastadora, mas muito comum, para muitas crianças e adolescentes em nossas cidades. Esteja atento e, em caso de suspeita, denuncie, ligando para o Disque 100.

Enquanto isso, a pornografia influencia essa realidade e estimula a violência sexual contra crianças e adolescentes. Deixar de clicar em conteúdo pornográfico é reduzir a demanda pela produção desse tipo de conteúdo, e também é uma forma de proteger sua mente e corpo de serem influenciados de maneira tão negativa. Por isso, faça uma escolha movida por amor: não clique.

Compartilhe este texto, para que mais pessoas conheçam essa realidade!


Referências:

  1. BRIDGES, A.; WOSNITZER, R.; SUN, C. e LIBERMAN, R. Aggression and sexual behavior in best-selling pornography videos: a content analysis update. In: Violence Against Women 16. 2010.
  2. 2017 year in review. Disponível em: https://www.pornhub.com/insights/2017-year-in-review
  3. ZILLMANN, D. e BRYANT, J. Effects of massive exposure to pornography. 1988.
  4. MANNING, J. Hearing on pornography’s impact on marriage and the family. 2005.

Para conhecer os dados mais recentes sobre hábitos no consumo de pornografia no Brasil, e as opiniões de especialistas no assunto, baixe nosso eBook gratuito.

Relacionados: