Sempre que uma pessoa me envia um e-mail compartilhando sua luta contra a pornografia, e me pergunta o que ela deveria fazer, meu primeiro conselho é: “você precisa contar para alguém”.

Isso traz medo para o coração da maioria de nós, por causa da vergonha que a pornografia traz, mas também por causa da vergonha que temos em geral, ao tratar de sexualidade, especialmente no contexto das igrejas.

Cristãos parecem estar o tempo todo divididos entre o mandamento de “confessar” e o desejo de não ser publicamente envergonhados

Muitos homens e mulheres cristãs compartilhariam seu problema com a pornografia, se soubessem que seriam recebidos com ajuda e graça, ao invés de olhares julgadores e condenação. Eu sei disso porque tenho o privilégio de conhecer diversas comunidades cristãs e iniciar essa conversa, para ajudar a aproximar aquelas que sofrem daqueles que lhes podem ajudar.

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Em algum ponto, sim, todos nós devemos compartilhar nossas histórias. Afinal, estar aberto ao próximo é o que gera intimidade. E, ao contrário do que muita gente pensa, intimidade não é gerada estritamente na relação sexual, mas é muito mais do que isso: é conhecer e ser conhecido.

E a arquirrival da intimidade é o medo de ser conhecido por alguém – em outras palavras: vergonha.

Mas existe um equilíbrio. Nossa sexualidade é algo pessoal, e jogar todas as nossas lutas e dificuldades aos ventos, para que todos vejam, não me parece ser algo muito saudável. Só porque você precisa contar para alguém, não significa que precisa contar para todo mundo.

Portanto, para balancear essa equação, aqui vão 3 questões para você fazer a si mesmo, antes de se abrir com alguém sobre seu problema com a pornografia:

1: Qual é minha motivação?

Quando falo em motivações, não pense nelas como “bons motivos” x “maus motivos”. Por que? Porque frequentemente medimos quão boas ou más elas são com base em como elas nos fazem sentir. Assim, pensar que temos “maus” motivos faz com que nos sintamos maus.

Ao invés disso, pense em motivações “positivas” ou “negativas”. Então, digamos que você está pensando em contar ao seu namorado sobre sua luta contra a pornografia. Uma motivação positiva seria: “eu não quero que essa vergonha que eu sinto afete nosso relacionamento. Eu quero ser conhecida, e saber que ele me conhece”. Uma motivação negativa seria: “eu deveria conseguir tirar essa pedra do meu caminho; eu mereço ser punida por não conseguir; eu mereço perdê-lo”. Você percebe a diferença?

Uma motivação positiva é saudável, pois está sempre interessada em cura e liberdade, para si mesmo e para o próximo.

Eu fiz tudo errado quando comecei minha jornada. Minhas motivações eram cheias de raiva, e direcionadas diretamente à igreja. Eu queria que as pessoas soubessem que estavam falhando em não me ajudar. Mas, no fim das contas, isso não trazia nada positivo.

Tudo mudou quando mudei meu foco. Deixei de falar: “eu sei que estou errado, mas vocês estão fazendo tudo errado” (uma motivação negativa) e passei a falar: “aqui está o meu erro, e eu acho que vocês poderiam me ajudar se agissem de tal forma” (uma motivação positiva).

2: Essa pessoa é confiável?

Uma vez que você entende os motivos por que é positivo compartilhar sua história, é muito importante escolher sabiamente com quem você irá compartilhá-la. Essa pessoa precisa ser confiável. E essa é mais uma questão que devemos avaliar da maneira mais objetiva possível.

Quando estamos imersos em vergonha, todas as pessoas parecerão não ser confiáveis.

Eu recebo e-mails de pessoas dizendo que gostariam de contar sobre seus problemas com a pornografia para alguém. E os e-mails geralmente contêm uma sentença que diz algo como: “eu até tenho alguém para quem poderia contar, mas…”. E a justificativa que segue raramente tem algo a ver com a pessoa, mas tem tudo a ver com o medo:

  • “Eu tenho amigos para quem poderia contar, mas eu não quero que eles pensem negativamente sobre mim”.
  • “Eu tenho uma boa liderança na igreja, mas não quero que eles olhem diferente para mim”.
  • “Eu poderia contar para algum irmão na fé, mas tenho medo de que isso deixe um clima esquisito no ar”.

Todos esses argumentos estão baseados em medo e vergonha. Enquanto você seguir acreditando neles, você não vai conseguir se abrir com ninguém, ou então vai acabar se abrindo com a pessoa errada.

É importante lembrar que a confiabilidade de uma pessoa não é determinada por seu status. Pastores, infelizmente, não são automaticamente confiáveis só por serem pastores. Até mesmo pais/mães, infelizmente, não são automaticamente confiáveis só por serem pais/mães. Na verdade, alguns pais são justamente aqueles que introduzem filhos ao mundo da pornografia. Portanto, não, nem todos os pais são confiáveis.

Ao invés de julgar o status, olhe para o caráter da pessoa:

  • Eu posso confiar nessa pessoa? Talvez você possa avaliar essa questão verificando como a pessoa se sai quando você confia a ela questões menores.
  • Essa pessoa manteria o sigilo? Acho que toda igreja tem aquela pessoa que espalha as confissões de outras pessoas na forma de “pedidos de oração”. Não se abra com essa pessoa.
  • Essa pessoa é alguém que você respeita? Isso é muito importante. Se sua motivação é encontrar cura e crescimento, então a pessoa para quem você for contar deve ser alguém respeitável. Pode ser uma pessoa mais velha, que expressa em sua vida qualidades que você almeja, ou mesmo alguém de sua idade, que demonstre segurança em importantes áreas da vida.
  • Você tem condições de encontrar com essa pessoa presencialmente? Grupos de apoio online são ótimos, mas há um grande valor em compartilhar sua luta também com uma pessoa que faça parte de sua vida no local onde você está, seja ela um pastor, líder, ou amigo. É relativamente fácil se esconder por trás de um personagem quando se está online, e relacionamentos online são mais facilmente deixados para trás.
  • Essa pessoa pode ajudar? Como? Pense sobre o que exatamente a pessoa pode fazer para ajudar você em sua caminhada, e comunique isso para ela. Você só quer alguém para lhe ouvir? Diga isso para ela. Você quer que a pessoa se encontre com você uma vez por semana para você ser constantemente transparente? Deixe isso claro. Ajuste as expectativas, para que ambos não fiquem frustrados.

3: Quão curado estou?

Se você está pensando em compartilhar sua história com o propósito de ajudar alguém, é importante se perguntar sobre o quão curado você mesmo está. Mas essa não é uma questão de extremos. Nós cristãos temos o hábito de pensar que só podemos dar nosso testemunho quando estivermos completamente curados. Mas isso não está certo, e isso acaba gerando dois resultados:

  • Quando outras pessoas compartilham sua história, assumimos que elas já estão resolvidas, curadas, e então as colocamos sobre um pedestal de perfeição.
  • Quando as vemos sobre o pedestal de perfeição, nos sentimos ainda mais envergonhados, porque sentimos que nunca “chegaremos lá”.

Na verdade, se pararmos para pensar, fomos nós mesmos que colocamos essa pessoa sobre o pedestal, e se você pergunta-la, provavelmente ela irá dizer que não pertence a esse lugar de perfeição. Você percebe como a vergonha causa tanta confusão?

Se você está esperando se tornar perfeito para compartilhar sua história, nunca irá compartilhá-la. Pergunte-se sobre quão curado você está, não com o intuito de verificar se você é “digno” de ajudar alguém, mas para manter um olhar honesto sobre sua própria jornada. Se você não superou completamente determinada questão, não finja que superou. Não suba no pedestal somente porque você pensa que é lá que você deveria estar.

O que você pode fazer?

Você não deve a ninguém a sua história. Ela é um presente, que você escolhe a quem dar. Às vezes, compartilhamos nossa história para receber cuidado, cura, comunhão, e crescimento. Outras vezes, fazemos isso para ajudar outras pessoas, ou deixar a porta aberta para que outras pessoas também o façam. Portanto, você deveria se abrir com alguém sobre seu problema com pornografia? Sim; mas para buscar ajuda e liberdade, e não para encontrar vergonha ou humilhação.

Vai ser difícil, desconfortável, ou esquisito? Provavelmente. Mas também pode ser o mais importante passo a ser dado em sua caminhada na luta contra a pornografia. Vale a pena dá-lo.

*Texto traduzido e adaptado de “Should I tell someone about my  porn problem?”. Disponível em: https://beggarsdaughter.com/should-tell-someone-porn-problem/

Compartilhe este texto, para que mais pessoas conheçam essa realidade!

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