Como você classificaria a famosa escultura em que Michelangelo retratou o herói bíblico Davi, completamente nu: arte, ou pornografia? E as cenas picantes da série de televisão “Game of Thrones”? Pornografia, ou arte?

Ao final de minhas palestras, sempre abro espaço para perguntas. Isso enriquece muito o debate, porque pornografia não é somente algo sobre o que pouco se fala, mas também é um tema que se relaciona com muitos outros temas de nosso cotidiano; por isso, gosto de dar a oportunidade para que aquilo que se passa na mente da plateia também possa ser abordado, pois pode ser uma dessas relações em que eu ainda não havia pensado. E foi justamente o que aconteceu há algum tempo, quando me perguntaram sobre os limites entre o nu artístico e a pornografia.

A nudez tem sido usada em expressões artísticas ao longo de toda a história, em pinturas, esculturas, peças de teatro e, mais recentemente, em novelas, filmes e séries de televisão. Agora, será que podemos dizer que toda exposição de nudez é pornografia?

Como definir o que é pornografia?

Se buscarmos o significado dos termos, vemos que uma definição para pornografia é: “todo material impresso ou digital (imagens, vídeos ou textos), que retrate ou descreva pessoas nuas, órgãos ou atos sexuais, com o objetivo de causar excitação sexual”. Portanto, para podermos dizer se algo é ou não pornografia é preciso analisar três fatores: o conteúdo em si, o objetivo com que foi criado, e a reação que causa em quem o consome.

Dessa maneira, pode ser que para você um conteúdo como uma fotografia com seios à mostra seja considerado pornografia, porque lhe causa um estímulo sexual, enquanto que para outra pessoa o mesmo não aconteça. Sem contar que nem sempre temos como saber se esse conteúdo foi produzido expressamente com esse objetivo. Assim, pode ser que o “nu artístico” em uma peça de teatro ou numa série de televisão seja como pornografia para algumas pessoas, e para outras não.

Como você deve estar percebendo, definir pornografia não é uma tarefa tão simples. Pense bem: muitas propagandas e diversos programas de televisão que permeiam o horário “familiar” das tardes de domingo de nossas televisões utilizam a exposição do corpo humano de maneira que seria obviamente considerada pornográfica para cidadãos comuns de uma ou duas gerações passadas.

A maior dificuldade com essa questão é que a definição dos termos pode limitar a compreensão dos fatos. E os fatos mais importantes, que não devem ser deixados de lado, podem ser expostos a partir de pelo menos três pontos de vista:

a) O ponto de vista da arte

O ator Pedro Cardoso, que ficou muito conhecido por seu personagem Agostinho, no programa televisivo “A grande família”, abordou esse assunto em sua produção teatral “O homem primitivo”, e concedeu algumas entrevistas que geraram grande repercussão. Para ele, um dos problemas com a nudez em uma expressão artística é que é o corpo que se apresenta nu não é do personagem, mas do próprio artista. Basta notar que, quando uma atriz aparece seminua em uma novela, as notícias são de que ela própria fez isso, e não seu personagem. Assim, para Pedro, a impossibilidade de desvencilhar o corpo nu do artista enfraquece o discurso artístico e, por isso, ele se desafiou a realizar sua peça de teatro para abordar a temática da sexualidade, mas sem utilizar o artifício da nudez. Ele diz: “Acho que a pornografia disfarçada leva a gente à televisão e ao cinema; mas eu acho que a ausência dela levará mais”. De fato, sua peça teve grande repercussão e público.

b) O ponto de vista do ser humano que está por trás do personagem

Note que Pedro Cardoso chama o “nu artístico” de pornografia disfarçada. E não é despropositadamente que o faz. Pedro diz que “existe uma opressão terrível contra a mulher; e um dos modos dessa opressão é que a mulher tem que atender ao interesse sexual masculino; e uma das formas de atender é essa pornografia diluída”. O problema é que, para atender esse interesse, o custo é muito alto. É a vida de uma atriz que é destruída. A violência psicológica e física que garante a nudez na imensa maioria das produções pornográficas é devastadora. Pedro acrescenta: “eu recebi muitos relatos de muita coisa triste, de jovens atrizes que abandonaram a profissão, porque, ao chegarem para fazer um teste para um filme ou para uma novela, eram obrigadas a se despir”. E “você vai perguntar depois, lá na frente, para as pessoas que forneceram seus corpos e sua intimidade para essa indústria, e você vai encontrar pessoas destruídas (…); a pessoa está destruída psicologicamente; isso é muito violento. Isso é uma prostituição velada. É muito violento”.

Leia: Lucros e prejuízos na indústria pornográfica.

c) O ponto de vista do expectador

Embora você não possa conhecer o objetivo com que cada material que contenha nudez seja produzido, você pode avaliar os impactos que esse material lhe traz. Ver determinada cena de uma série televisiva faz com que você se sinta sexualmente estimulado? Então, por definição, para você esse conteúdo é pornografia. Mas quais são os problemas disso?

Pode ser que você não perceba os impactos imediatamente, mas diversas pesquisas e relatos mostram que a exposição à pornografia afeta nosso cérebro, transforma nossas opiniões e comportamentos e também prejudica nossos relacionamentos. Quem consome pornografia apresenta maior propensão ao desenvolvimento de vícios e depressão [1], aumento de problemas conjugais, do risco de divórcio e do interesse por práticas sexuais violentas ou abusivas [2], pode enfrentar a hipofrontalidade (distúrbios na região pré-frontal do cérebro, que é responsável por avaliar impulsos e gerar a tomada de decisão), a dessensibilização [1] (diminuição de interesse e prazer em atividades cotidianas) e tem maiores riscos de desenvolver disfunção erétil [3].

Leia: O que acontece em meu cérebro quando vejo pornografia?

Talvez esses impactos possam parecer possibilidades distantes, e você se pergunte se apenas algumas cenas mais explícitas podem causar os mesmos efeitos. É claro que não precisamos nos distanciar de toda forma de expressão artística, mas, devido à falta de uma definição clara sobre o que pode ou não ser considerado pornografia, é importante considerar os pontos de vista mencionados, para adquirir maior consciência sobre os possíveis impactos que a pornografia – em formas explícitas ou mais sutis – pode trazer à sua vida, e assim tomar decisões mais acertadas sobre que tipos de arte você vai consumir.

O que você pode fazer?

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Referências:

  1. GILKERSON, Luke. Your brain on porn. Owosso: Covenant Eyes, 2014.
  2. MANNING, J. Hearing on pornography’s impact on marriage and the family. 2005.
  3. VOON, Valerie, et al. Neural correlates of sexual cue reactivity in individuals with and without compulsive sexual behaviors. PLOS One, 2014.

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