Eu fui um adolescente feliz, mas cresci convivendo com um medo bem específico. Tinha medo de que Jesus voltasse em um dia em que eu havia caído em tentação, por ter visto pornografia.

Afinal de contas, a bíblia me parecia muito clara quando dizia que “quando um homem tiver perda de esperma, deverá tomar um banho e ficará impuro até o pôr do sol” (Lv 15.16).

Ah, quantas vezes eu me vi impuro e orei, aflito, pedindo a Jesus que esperasse só mais um pouquinho para voltar – pelo menos até o fim daquele dia. E quantas vezes, após o pôr-do-sol, orei agradecendo por Ele ter esperado, e prometendo que aquela havia sido a última vez.

Você se identifica de alguma maneira com essa situação? Já viveu angústia parecida? Bem, eu confesso que demorei a entender o que aquele texto realmente queria dizer. Por isso, imaginando que isso possa aliviar o fardo de alguém, quero compartilhar agora com você 3 destaques que podem descomplicar o que a Bíblia fala sobre pornografia, em Levítico 15.16:

1: A “impureza” mencionada em Levítico 15.16 não tem a ver com salvação eterna

Primeiramente, o que eu gostaria de ter entendido mais cedo, é que aquela “impureza” que o capítulo 15 de Levítico menciona não tem nada a ver com minha salvação. Não era essa impureza que me levaria para o inferno.

Na verdade, isso é muito simples de ser compreendido. Afinal, se essa impureza tivesse algo a ver com meu destino eterno, pobre da mulher que passa mensalmente por uma inevitável menstruação: conforme o versículo 19 do mesmo capítulo bíblico, ela ficaria impura por sete dias. E, se essa impureza estivesse atrelada à perspectiva eterna, isso significaria que durante um quarto do tempo de todos os meses as mulheres estariam correndo o risco de Jesus voltar, encontrá-las “impuras”, e arrastá-las para o fogo infernal. Não faria muito sentido, certo?

Percebe? Lendo apenas mais alguns versículos para a frente, fica muito claro que a “impureza” mencionada nesse trecho bíblico não tem a ver com salvação eterna. O problema é que, quando estamos obcecados com o pecado, podemos perder a noção daquilo que o texto bíblico diz como um todo. Ao fixar os olhos em um versículo ou um conceito isoladamente, corremos o risco de ficar cegos para a realidade completa do que a bíblia quer nos dizer.

2: Então, com que o texto tem a ver?

Se a “impureza” mencionada em Levítico 15.16 não é algo que assina nosso passaporte para o inferno, então qual é o objetivo desse texto?

Bem, a questão é que isso tem tudo a ver com a maneira como enxergamos Deus. Se tivermos a noção de que Deus é um senhor ranzinza e distante, que cria leis indiscriminadamente e anseia em punir quem as descumpre, então estamos falando de um Deus diferente daquele apresentado na bíblia. Mas, se nos lembrarmos que Deus é referido como o Pai – um pai amoroso, cuidadoso, preocupado, dedicado, e sábio – então poderemos compreender o sentido de suas leis de uma forma mais coerente.

Um bom pai não propõe regras para seus filhos como um requisito para que ele os ame. Ele simplesmente os ama e, porque os ama, lhes dá orientações e regras, para o próprio bem dos filhos. Deus é um Pai perfeito, que sabe o que é melhor para seus filhos.

Com isso em mente, a interpretação mais aceita para esse texto de Levítico é de que o sentido de tratar algumas coisas como “puras” ou “impuras” seria por razões higiênicas [1]. E, de fato, isso se comprova nos capítulos anteriores, onde são mencionadas orientações sobre a impureza causada por várias outras questões, como mofo e doenças contagiosas.

Num primeiro momento, pode parecer que a perda de esperma ou a menstruação não sejam  algo tão preocupante assim, do ponto de vista da higiene. Mas, se considerarmos as condições sanitárias do tempo em que viviam os israelitas, essas recomendações passam a fazer ainda mais sentido. De qualquer forma, mais do que comprovar cientificamente a importância desse tipo de lei para aquele tempo específico, o texto reforça a certeza de que Deus é um Pai preocupado com o bem de seus filhos – até nos mínimos detalhes.

3: Somos todos impuros, completamente impuros

Compreendendo o que diz e também o que não diz o versículo de Levítico 15.16, resta fazer um destaque que, para mim, é o mais importante.

A verdade é que, quando eu me angustiava com o medo da condenação, ao me considerar impuro por ver pornografia, estava sendo extremamente presunçoso. Eu pensava que aquele pecado específico estaria me levando para o inferno, e me esquecia de todas as outras ações, omissões, pensamentos e palavras pecaminosas que mostram minha essência. Sou completamente impuro. Somos todos impuros.

Por isso, fica evidente a carência que temos da misericórdia de Deus. Precisamos desesperadamente de seu perdão e de sua graça.

E a boa notícia é que nós as temos! Recebemos misericórdia, perdão e graça daquele que é o único puro entre todos: o Filho perfeito, Jesus. A bíblia diz que Jesus morreu “para, com o seu próprio sangue, purificar o povo dos seus pecados” (Hb 13.12). Diz também que “com um sacrifício só, ele aperfeiçoou para sempre os que são purificados do pecado” (Hb 10.14). E mais: “foi ele quem se deu a si mesmo por nós, a fim de nos livrar de toda maldade e de nos purificar, fazendo de nós um povo que pertence somente a ele e que se dedica a fazer o bem” (Tt 2.14).

O que você pode fazer?

Querido irmão, não tenha medo: você não vai para o inferno porque se masturba. E você também não vai para o céu porque consegue se controlar. Não são nossos comportamentos, nossas obras, que têm o poder de nos afastar ou aproximar de Deus. É somente pela misericórdia, pelo perdão e pela graça do Pai, que recebemos em Jesus. Nele você pode confiar.

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Referências:

  1. HARRISON, R. K. Introduction to the Old Testament: with a comprehensive review of Old Testament studies and a special supplement on the Apocrypha. Grand Rapids, MI: William B. Eerdmans Publishing Company, 1973, p.603-607.

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