Quando entram na indústria pornográfica, atrizes e atores passam a vivenciar uma realidade cruel, que geralmente não é percebida pelo consumidor.

De acordo com uma pesquisa sobre tráfico de mulheres do Brasil [1], elas ficam presas “em cativeiro, sob ameaças, sendo obrigadas a usar drogas, álcool, vivendo terríveis condições de exploração e espancamentos (…). Obrigadas a vender seus corpos como mercadoria, sem proteção, sem que se importem com o estado de saúde delas. (…) As mulheres são mantidas em cativeiro, sem o direito de ir e vir” [1].

É paradoxal perceber que muitas meninas procuram oportunidades na indústria pornográfica para deixar uma situação de miséria, mas simplesmente acabam entrando em outra.

Acredito que essa seja uma realidade que nenhum de nós quer para si ou para as pessoas que ama. Então, por que continuamos promovendo-a para outras pessoas? Cada clique em conteúdo pornográfico dá apoio a essa indústria.

Mas também acredito que a maior parte das pessoas simplesmente não tenha noção dessa realidade. Por isso, para que mais pessoas possam tomar uma decisão coerente, baseada no amor ao próximo, e lutem para deixar de consumir pornografia, quero convidar você para conhecer como é um dia de trabalho comum para quem está na indústria pornográfica.

Sexo?

Ao analisarem cenas de materiais pornográficos mais vendidos, pesquisadores detectaram que em 88,2% das ocasiões havia agressão física – principalmente tapas e bofetadas – e que em 48,7% havia agressão verbal. Em 94,4% dessas ocasiões, as vítimas das agressões eram mulheres [2].

Considerando ainda que essa é a percepção de quem está do lado de fora dos sets de filmagem, analisando conteúdo editado e finalizado, pode-se imaginar que a realidade é ainda mais severa. E o ponto de vista de mulheres que já estiveram sob o foco das câmeras confirma essa suspeita, revelando o constante abuso a que são submetidas.

Atrizes admitem que não há diferença entre estupro e a gravação de uma cena pornográfica, exceto que na última ocasião a atriz é paga [3]. Muitas vezes, atores sujeitam as mulheres de forma extremamente humilhante e violenta e não lhes deixam a opção de dizer não a qualquer tipo de prática sexual.

Drogas

Diante desse panorama, o uso de drogas é praticamente unanimidade – especialmente para as mulheres – porque elas “não conseguem lidar com a terrível forma como são tratadas”, conforme relata uma ex-atriz [4]. Entre as drogas mais consumidas estão álcool, maconha, ecstasy, cocaína e metanfetamina [5].

A pesquisadora Mary Anne Layden relata que “é muito comum que as atrizes precisem consumir bebidas alcoólicas e outras drogas, para que possam estar anestesiados para trabalhar” [6].

Marcha fúnebre

Outro fator importante é que não há a devida proteção para a prática sexual que é realizada na produção de conteúdo pornográfico. Lubben [7] afirma que apenas 17% dos atores usam preservativos e Grudzen [8] diz que os atores relatam ser orientados a não usar preservativos, caso desejem continuar empregados.

Enquanto isso, Lubben diz que pelo menos 80% das atrizes e atores relatam haver contraído doenças sexualmente transmissíveis (DST) ao trabalhar em produções pornográficas e, de acordo com relatórios de testes para diagnóstico de DST, em algumas ocasiões as incidências de clamídia chegam a 62,6%, e as de gonorreia 30,8% [8].

Além disso, Layden afirma também que “as terríveis condições de trabalho são frequentemente acompanhadas por igualmente terrível vida familiar (…), com crescentes chances de sofrerem violência doméstica e chances cerca de 25% maiores de não conseguirem um casamento que dure mais do que três anos”[6].

O que você pode fazer?

A indústria pornográfica é perversa. A produção de pornografia se baseia no abuso sexual e exploração da intimidade física e psicológica de pessoas, sob o pretexto de criar entretenimento. Assim como o crime de estupro, cada vídeo, revista ou imagem que registra uma mulher, adolescente ou criança nua, ou sendo abusada sexualmente, é também o registro de uma vida sendo destruída.

Por isso, cada clique a menos é uma forma de diminuir a demanda, e lutar contra essa situação. Tome uma decisão coerente com o amor: não clique. Pare a demanda.

Compartilhe este texto para que mais pessoas conheçam essa realidade.


Referências:

  1. HAZEU, M. (Coord). Pesquisa tri-nacional sobre tráfico de mulheres do Brasil e da República Dominicana para o Suriname. Belém: Sodireitos, 2008.
  2. BRIDGES, A.; WOSNITZER, R.; SUN, C. e LIBERMAN, R. Aggression and sexual behavior in best-selling pornography videos: A content analysis update. In: Violence Against Women, vol. 16, n. 10, P. 1065-1085, 16, Outubro, 2010.
  3. FTND – FIGHT THE NEW DRUG. Jessica’s Story: My Life As A Porn Star. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=Bk23mL15qpA.
  4. COVENANT EYES. Pornography Statistics: Annual Report 2015. Owosso: Covenant Eyes, 2015.
  5. GRIFFITH, J.; MITCHELL, S.; HART, C.; ADAMS, L.; GU; L. Pornography actresses: An assessment of the damaged goods hypothesis. In: Journal of Sex Research, 1-12. November, 2012.
  6. LAYDEN, M. A.. Testimony for U.S. Senate Committee on commerce, science and transportation. Disponível em: http://www.drjudithreisman.com/archives/Senate-Testimony-20041118_Layden.pdf
  7. LUBBEN, S. Ex-porn star tells the truth about the porn industry. Disponível em: http://www.covenanteyes.com/2008/10/28/ex-porn-star-tells-the-truth-about-the-porn-industry
  8. GRUDZEN, C. R.; KERNDT, P. R. The Adult Film Industry: Time to Regulate? In: PLoS Medicine, 4(6), e126, 2007. Disponível em: http://doi.org/10.1371/journal.pmed.0040126

 

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